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31.5.06
esse meu desapego tanto pelo dinheiro... eu deveria tê-lo era pelas coisas que não são naturais; a insistência desse meu amor por você, por exemplo.
por c. - 4:15 PM
30.5.06
Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oforece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.
[ nuno júdice - carpe diem ]
por c. - 3:15 PM
Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.
[ nuno júdice - ecloga ]
por c. - 3:12 PM
29.5.06
...quero esquecer que um dia assisti falácias brotando da tua boca...
...que vi florescer quimeras adubadas pela força do meu desejo...
...que assisti, sentada a um banco no jardim, polenes grudando tatuagens azuis em meus lábios...
...que hoje vejo a floresta de cabelos trançados em plena partícula sangue se fazendo negra como um tigre lança incrustada na carne...
...quero insistir em saber que não ver não sentir não respirar é não irromper o silêncio...
o silêncio que é a casa das mentiras no espelho.
por c. - 11:11 PM
aprendeu a separar o nocturno zinabre
do transumante desejo e poro a poro o dia
larga sobre a pele os perfumes da terra
e o tempo cobre-se de cardos em cinza
tem o olhar escondido na inquietação da luz
guarda no peito o sossego dormente das pedras
um ombro de sombra dá-lhe frescor à boca
mas se ao morrer o abrissem ao meio
nada encontrariam
nem vísceras nem ossos nem sangue
apenas poalha de água
e a dor da infindável travessia
[al berto, O Livro dos Regressos, 1989, o medo, 1998]
por c. - 10:22 PM
o seu coração é uma jaula de luz fechada
ao mundo subtraiu o corpo todo e a respiração
mal se ouve no outro lado do espelho
é poeira de máscaras e à sua volta o estremecer
da noite intensa a solidão dos astros
sabiamente apagou
no escuro ergeu os olhos e disse:
é pano de lume
àquele que dos caminhos ignorou o tempo
acende uma gotas de eterninade no amargo peito
[al berto, O Livro dos Regressos, 1989, o medo, 1998]
por c. - 10:04 PM
de labirinto em labirinto
construí o tempo de imperceptíveis gestos
no ouro da memória tecia o minotauro
tatuado a néon sobre o ombro
depois
por entre fumos de haxixe cresceram as cabeças
das leoas de Delos hirtas
nenhum sofrimento nos atingia
quando apertei a mão de meu amigo
e o levei pelo sono do mar
onde se levanta um corpo
capaz de paralisar de alegria o coração
parámos de nos contar histórias antigas
mas a sedução do minotauro permanecia
e falámos tanto que me esqueci de te dizer
uma ave sangra sob os passos
onde a cinza rubra de fogueira extinta
reacende um desejo que nos murmura
quando morrerdes o amor dispersar-se-á
e flor nenhuma como Narciso Adónis ou Jacinto
vos recordará
Fomos em silêncio pelas ruínas da ilha
não encontrámos água
bebemos os poemas e a paixão
bebemos sôfregos o vento ardente
até perdemos o sentido das palavras
e cada vez mais sós debruçados para a noite
dos oráculos insones entre crepúsculo e alba
nenhuma saída se vislumbrava
[al berto, Uma Existência de Papel, Vigílias, 1984/1985, o medo, 1998]
por c. - 10:02 PM
só conseguia amar-te se falasses de mim
sem cessar
hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos
uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me
eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração
[al berto, Uma Existência de Papel», 1984/1985, o medo, 1998]
por c. - 9:58 PM
vem comigo
ver as pirâmedes fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas
iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforme e morre
e já não nos pertence
vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel
vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
[al berto, Uma Existência de Papel», 1984/1985, o medo, 1998]
por c. - 9:57 PM
destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica
depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu
e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
[al berto, vigílias, o medo, 1998]
por c. - 9:55 PM
onde a terra se aquietou sob o gelo
os rios da fala suspenderam
o infindável movimento para a noite
da minha imobilidade cresce o sussurro;
é inalcançável o sossego
quando se decidiu viver sozinho
a memória desfaz-se em sangue e esperma
incendeia a pele desta paisagem de rostos
na penunmra ferrugenta do espelho erguem-se
os dedos entralaçados perfuram nódoas de luz
eu sei
como é precária a harmonia entre coração e terra
fechámos a porta do corpo para sempre
e sobre o gume da navalha deixámos insinuar-se
o pulso ausente
na maresia das aquáticas palavras
que me afastam e lavam de ti
[al berto, transumâncias, o medo, 1998]
por c. - 9:51 PM
não voltaremos a pressentir o mar
nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas
sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde
louco pássaro de cinza sulcando o ar rarefeito
e a escuma luminosa dos meteoros que cegam
os frementes alicerces de cidade insone
não nos reflectiremos mais nos gestos desgastos
nem na demência da língua donde irrompe a alba
e nómadas continuaremos para lá do sangue
flutuantes no escuro sonho
os corpos incendiados um no outro
consomem-se formando insuspeitas constelações
vagarosamente
através dos séculos regressaremos
intactos ao nada essencial
[al berto, três poemas esquecidos, o medo, 1998]
por c. - 9:47 PM
os teclados deveriam vir com um botão fire para queimar os e-mail's do amor partido.
por c. - 5:33 PM
26.5.06
A Editora Rocco e a Livraria da Travessa convidam para o lançamento do livro:
Não Feche Seus Olhos Esta Noite, da Maira Parula
Local: Livraria da Travessa
Visconde de Pirajá, 572
Ipanema / Rio
Data:30/05/06 Hora: 20:00
Se você não for, considere-se morto. Para sempre. E é MAira, MAira, sacaram??
por c. - 9:20 PM
abro a persiana de água
o fogo desaba rumoroso sobre o mar
árvores de vento protegem os corpos
destapados... simulamos o sonho
consigo tactear o fundo queimado do espelho
onde me sento para te escrever... desvendo
a paisagem em redor da casa contigo dentro
espio a dor salgada das visões
que os dedos largam por cima da roupa
dentro das gavetas que não voltei a fechar
assusto-me
quando penso ouvir tua voz de regresso
devorando o humilde sossego do coração
mas o lodo corroeu a sombra do rosto
diluiu a fresca lua tatuada no ombro apressado da noite
uma ave de fogo entra pela janela onde me debruço
ao abandono à desolação do dia a dia
costuro o olhar ao voo migrante dos pássaros ou durmo
na ilusão de encontrar algum rosto
escondido sob o peso do branco bolor
a memória está perfumada de violetas
desprende-se dos pulsos escorre pela cal das paredes
persigo-me
pela madrugada das sujas palavras
com o pressentimento de ter morrido longe do meu corpo
encosto-me às esquinas disponíveis da cidade
amachuco a vida debaixo dos sóis que te evocam
oferecendo a espuma da boca a todos os desconhecidos
[al berto, trabalhos do olhar, o medo, 1998]
por c. - 8:46 PM
Era a possibilidade de recompor suas perdas que a fazia tão atenta. Ajeitara o cabelo com minúcia tal que poderia se dizer que uma obra prima fora criada. Ávida, localizava pontos escuros no queixo e no nariz com a intenção de colori-los com pó-de-arroz. Checou por três vezes se havia deixado escorrer laquê na gola da blusa de seda coreana. Não poderia deixar que uma falta dessas colocasse em risco todas as perspectivas milimetricamente ensaiadas de como encarar um novo tempo. E não seria uma simples gola suja que desmarcaria aquele dia em sua folhinha. Com a elegância das coisas quietas, a cadeira assentava perfeitamente o casaco marrom. Que fora escovado no dia anterior e posto no varal para tomar um sol, livrar-se da ressequidão que lhe empesteava as listras como um seio próximo ao seu fim. O par de sapatos era robusto e já muito batido, mas caminhara por ruas secas, nada havendo que lhe ferisse a gravidade agora. Sim, eles ainda estavam prontos para caminhar por mais uma vez. A ordem imaculada de sua carteira causava-lhe uma espectral segurança. Duas notas de vinte, uma de dez e outras miúdas para fazer troco. Ou para dar a algum pedinte mais insistente. Arrumadas em ordem crescente, suas faces não se tocavam. Olhavam sempre para a frente. A carteira de identificação, ao lado do cartão do banco no bolso externo. No bolsinho interno, moedinhas já sem utilidade. Puro amuleto. E, por fim, a carteira irmanada à bolsinha que levava o mínimo de maquilagem obrigatório a uma mulher sem medos: um batom, um lápis de olho preto, um brilho e um blush para colorir o rosto nos momentos de tensão. Alisou mais uma vez a saia de crepe por ela mesmo tramada. Enqunto a vestia, pensava no trabalho que tivera para ajustá-la. Havia emagrecido um pouco, nada que a tornasse esquálida, mas o suficiente para afinar-lhe a cintura. Olhou-se nos olhos muito profundamente. Tateou a penteadeira em busca da pequena escova de pentear cílios. Não podia perder de vista aquele olhar.
por c. - 8:39 PM
roda roda
o menino
giramundo
em busca do seu coração.
ela era cansada, gasta, triste e velha e nem rangia a coitada, vai ver que seu óleo acabou. mas um menino viu, gostou, ao pai pediu e então ganhou. meio assustada, ela anacrônica, um pouco se tonteou: ele forte, menino moleque, pela mão a segurou. e foi assim que ganharam vida, céus de cores e de sons. se era frio era bom, e tanto fazia até se calor: juntos descobriam táteis emoções. viajaram fundo, voaram trilhas e planaram desertos: ela bem podia voar. cogitaram volta ao mundo: manaus, selvas e até o mar: com ninguém por perto, ele gostava de sonhar. e companheiros assim estiveram, e amantes até o foram: se clarice e sua felicidade clandestina assim o eram, então por que também eles não ousar? o menino, desvaído em suor e sal. e ela se recompunha, era toda sol e amor vernal. alimentaram-se, constantes anos a fio. ternuraram-se, enquanto volteavam ao redor do rio. enroscavam-se, ela e menino, um caracol arietino. passearam notre dame, viena, passe-partout. apeados, chuparam manga em aracaju. se cansados, sombreavam numa rama de baguaçu. e tantos foram os caminhos que era claro uma surpresa apontar o final: era tanta luz, tanto céu, tanto calor, e, compreendam, no mais era tudo conjectural. e o que se deu, não deveria se fadar: labirintos se nasceram centelhantes. o menino, um errando caminhante: ela, solitária de seu amante. e é por isso que agora ela só adormece assim: de lado tombado, encolhida em suas correntes, frio sem ter mais fim. e passa as noites em seus sonhos a enumerar: as viagens, os sorrisos, os presentes e os sins. e hoje, ela forjada em cambaio a relembrar o que passou: o menino se fez grande e o que era passeio se acabou.
por c. - 8:34 PM
23.5.06
sabe, há uma tristeza que me acompanha. uma tristeza vinda do oeste. ou do sul, do norte, da europa, de madri: tristeza a gente nunca sabe de onde vem. e quando ela se acomoda ao meu lado não há vento, não há frio, não há calor: sou árvore seca no asfalto. ela, comigo, se como, não há paladar. se bebo, não há torpor. tristeza mantém a gente lúcida o tempo todo. não se trata de remoer angústias ou mastigar ausências, é tristeza mesmo, símbolo de caminhar solitário, de café da manhã em pé na beira da pia. a tristeza é mansa e pode até embelezar. quem nunca admirou os traços doces de álvares de azevedo ou rimbaud? os olhos desesperados de van gogh ou de ana c.? é lenta esta tristeza que se instala em mim. mas é leve, não cansa e pouco dói. é companheira muitas vezes, senta-se na mesa do bar comigo. é de pouco beber, um nada de falar. ela só existe e é. e me olha meigo, quase que pedindo para em mim morar. então, eu fecho a conta e pago as bebidas que ela nem bebeu. e vamos juntas caminhando. eu deixo que ela me acompanhe, sou-lhe até complacente. mas torço para encontrar, numa esquina qualquer, alguém que me herde esta tristeza de mim. tristeza é coisa contagiosa, e, acredito, há até quem queira. os muito felizes, por favor, mandem um e-mail, porque ela jura que vai pouco incomodar. é uma boa tristeza essa a minha. mas não a quero mais, levem-na de mim.
por c. - 1:11 AM
pálidas promessas
que se querem robustas.
que tomam canja de galinha.
se fazem fortes sem alarde
e
recuperam-se
com
sono à tarde.
e
que
alimentadas à força de beterrabas
[para tomar sangue vivo]
tratadas à base de nescau
[energia que dá gosto]
sobremesadas com danoninho
[vale mais do que um bifinho]
são
hoje
promessas que ousam levantar
suas cabeças e
desesconder-se do armário
são
hoje
promessas que hão de se tornar
gordas abadessas
desvestindo-se de confessionário.
[do tempo em que dostoievsky imaginava-se rico em amor.]
por c. - 1:05 AM
cultuo mármores semblantes me que trucidam a cada esquina. as ruas, que imóveis deslizam pés transeuntes, de metro em metro apresentam seus escapismos. sim-me, aceito-te, sento-me. duas, três, quatro, tudo. respirações suspensas, cabelos nos pratos, amônia no ar. as crenças inacreditáveis: martelo martelo martelo martelo martelo. até que se rompe o tecido esgarçado. os fios, lisos elétricos, um a um, pouco a pouco, marionetados pelo fantástico espírito das sombras. outra. martelo martelo martelo martelo. foice em tudo. vá se lascar. outra.
por c. - 12:59 AM
exegeta
exegeta
exegeta
exegeta
exegeta
exegeta
exegeta
euvegeta
eleejeta
[ parolismo ]
por c. - 12:55 AM
é outro o vento que venta em mim;
e é o mesmo dia que banha nossos sorrisos. o monóxido dos carros e as libélulas cambetas conhecem outras atmosferas, mas que ainda assim são irmãs. as vozes. veludadas vozes, têm o mesmo timbre e sempre igual é o tom. os silêncios, mudos de palavras, repletos de interferências. calores caniculares, veios circulares, branco que fere e faz suar.
é, ana c. .... é outro o vento que venta em mim.
por c. - 12:54 AM
atravessei as fronteiras de mar e de sal. passeei vales e florestas. pastoreei rebanhos e conduzi o rio e a luz. divisei pastagens: fronteiras que divisavam o zelo do temor. e era como se eu ditasse as leis da física com o sol orbitando à minha volta. uma biblioteca de cores e sons transcendia toda e qualquer literatura. desfolhei páginas soltas nas árvores. e construí uma nova gramática. novas regras inexistentes, outras linguagens. me cedi ao dicionário das divinas essências, o sublime agora morava e pousava suas mãos em mim. atravessei fronteiras. as fronteiras que se encaixam entre a guarda da cama e o cobertor.
por c. - 12:52 AM
e eu fiquei aqui mesmo. tua dor boiando nos olhos me acusava. eu neguei. três vezes. tua boca dizia aquilo que teu peito repudiava. eu neguei, três vezes. tuas mãos cravaram acusações doloridas em minha colcha lilás. e eu neguei. três vezes. eu pedi que tu não fosses. e tu negaste. três vezes.
[ judas moderno ]
por c. - 12:49 AM
a paixão te conheceu e eu não uso óculos escuros.
conheci-te cinza e esquálido mas eis que me surges negro e robusto.
incomodar não incomodou amo-te do modo mesmo anterior.
al berto casa grande gangrenas expostas.
al berto ana c. casa gangrena grandes expostas.
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[ o medo ]
por c. - 12:21 AM
21.5.06
o eremitério do meu corpo
contrastando com o berçário dos meus pensamentos.
e os meninos com seus aros dourados
e de areia até aos cotovelos
e o pavor de bala perdida
e em pleno outono abril
o dilúculo de ana c.
e o não saber onde é é o onde ir.
por c. - 1:10 PM
"todas as historias, todas as mortes acabam por se apagar."
[al berto]
por c. - 12:01 AM
20.5.06
não te chores de saudades
que teus punhos já cacos de vivo não mais hão-de suportar o eterno arranhar do cimento tintado azul bebê
não te grites de saudade
que tua boca amarelecida inda muito outros cigarros há-de oferecer
não te espanques de saudade
que teus braços só amachucam lençol travesseiro almofadas cortinas tapete livros mesas de escrever
não te mates de saudades
que as alças se erguem e as tampas se fecham e a falta do ar há-de a ti envolver
não te envolvas de saudade
que teu colo pálido pesponto pintado postado puto de outros inda hão-de se socorrer
não te escrevas de saudade
que as tatuagens marcadas doídas no sangue o ácido o fel o lodo arisco do desengano hão-de se fazer morrer.
[para mim]
por c. - 4:08 AM
desocupa-te destes pensamentos, mulher.
despreocupa-te.
imagina-te voadeira rio abaixo peixes botos em par
recolhe teu olhar novamente mergulha em ti
desencanta-te breve como o suspiro esfarelado em caixas de setembro
resgata teu cancioneiro de poemas desfeitos à pressa
a pressa indolente do amor que impávido partiu.
[para mim 2]
por c. - 3:53 AM
19.5.06
embebedavas-te
na travessia daquele verão bebias muito vinho
na vertigem de fogosos corpos pouco sabias
acerca do ciúme e da traição
confiavas demasiado em ti eras alto e magro
nunca traficaras armas em Harrar
tinhas o peito cansado o andar lento
e jamais pernoitares sob o céu de Alexandria
escuta
a partir de hoje abandono-te para sempre
ao silêncio de quem escreve versos
em Portugal
tens trinta e sete anos como Rimbaud
talvez seja tempo de começares a morrer
[al berto, uma existência de papel: regresso às histórias simples - 1984/1985, o medo, 1998]
por c. - 4:09 AM
tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangues? e de água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
[al berto, trabalhos do olhar - 1976/1982 , o medo, 1998]
por c. - 4:04 AM
enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te
nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui
com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor
não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui...escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar...ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição
tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto...creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui.
[al berto, o esquecimento em yucatán - 1982/1983 , o medo, 1998]
por c. - 4:04 AM
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habituado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possivel inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
[al berto, o livro dos regressos - 1989, o medo, 1998]
por c. - 4:02 AM
as dálias desbotam e as zínias envelheceram
dentro da garrafa de plástico a água turvou-se
depois ocorreu-me qualquer remoto pensamento
aquele instante em que procuravas sorrindo
a minha mão por baixo da mesa do restaurante
peço-te para puxares os cabelos para trás
um fio de azeite brilha nos teus lábios
quando as palavras são violentas...sem o saber
precipito o teu regresso a casa
hoje não me lamento
levanto o olhar para o lugar que deixaste quase vazio
falo sobre a repetição dos dias
invade-me o prazer de te imaginar aqui a jantar comigo
quase em sussurro pedires-me cinco paus para ouvirmos
muito calados sempre o mesmo shade of pale
esta ausência foi a única dádiva abandonada
escrevia tudo isto há muito tempo
evitando que o punho da camisa se sujasse
na gordura das arestas da mesa...e tinha a certeza
de nunca descobrires os corações
desenhados com ternura no guardanapo de papel
[al berto, eras novo ainda- 1981/1982 , o medo, 1998]
por c. - 3:33 AM
deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda
agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito
levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde
onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora
de qualquer maneira não consegui a ligação
[al berto: eras novo ainda, o medo, 1998]
por c. - 3:22 AM
procuro-te no meio dos papéis escritos
atirados para o fundo do armário de vidrinhos
comias uvas no meio da página
a seguir era como se fosse noite
havia olhares que se cruzavam corpos
deambulações pela praia
era noite e alguém se aproximava
eu estava passeando os dedos
pelas nódoas frescas do vinho sobre a mesa o caderno
onde de quando em quando rabiscava um rosto
e listas de nomes que não queria esquecer
paguei o pão o vinho o queijo
levantei-me
tu cortaste-me a fuga vagarosamente preparada
pediste-me um cigarro
na outra página estávamos rindo
estendidos no pobre embarcadouro de madeira
planeávamos atravessar a noite mágica do rio
a página seguinte está em branco
mas lembro-me que te agarrei a mão e disse:
todos os cigarros do mundo são para ti
[al berto: eras novo ainda, o medo, 1998]
por c. - 3:00 AM
então? vês?
os gemidos abafados
brotando na boca molhada
misturando-se à baba viscosa do desejo?
então? vês?
o arrepio que faz úmida pesada
a carne da cara?
então? vês?
as artérias tomando corpo
com a proximidade que faz suar?
então? vês?
a dor que escorrega braços abaixo
germinando gritos erráticos e sincopados
atrelados ao movimento do corpo sincronizado
atado às alteradas batidas do coração?
então? vês?
isso é saudade.
agora escuta!
chafariz de sangue
e
contrabando de sorrisos:
assim se lida com a saudade.
assim se mastiga a saudade.
assim se vive com a saudade.
assim se saudade.
assim se saudada-se.
se: condiciona-se a conjunção.
isso é saudade.
ora, bem me sei da saudade:
por c. - 2:31 AM
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