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28.6.06
Das várias faces da morte:
Boneca sem olho
Quebra-cabeça faltante de peça
Caneta sem carga
Xícara sem pires
[quebrado pela cunhada invejosa]
Baralho sem Ás
Par de meias sem pé
[divorciaram-se quando um foi para a máquina de lavar, enquanto o outro escondia-se num desvão da memória com medo do carrossel lisérgico da brastemp: ele enjoava à toa]
Eu exorcizando você
e
Você exorcismada de mim.
[Aleluia, irmãos! Eu venci! É a razão operando sem anestesia!]
por c. - 5:40 AM
Há um motor permanentemente ligado em mim
E uma sirene zunzunzando ácida entre os
ouvidos.
E as palavras pesam na parte posterior do meu crânio *
Que um dia foi maior
Mas que foi lapidado ao longo dos anos
Para cair melhor sobre os ombros.
Meu imaginário, repleto de mitos, heróis e poder,
Quer desvencilhar-se de si
E não consegue.
Não permissão.
Escrevo na esperança do futuro
Embora esta sirene contínua,
E esse motor me atormentando,
Apontem-me uma única direção:
o Subsolo.
Ou uma posição:
a Vertical.
* nossos antepassados, coitados, sofriam com seu ponto de equilíbrio. suas caixas cranianas num pescoço pendulante. e isto está tatuado nas dobrinhas rechonchudas do nosso cérebro. e é por isso que ao chegar do sono, metáfora sinestésica de regressão, pendulamos para frente e para os lados o queixo e tudo mais que houver no espaço compreendido entre as orelhas e os óculos.
por c. - 4:00 AM
E hoje estou lúcida como se tivesse assistido a um assassinato. E nunca estive tão lúcida como neste instante. Nada como limpar os pensamentos com álcool. Mas creio [mão em forma de concha na lateral da boca, como que num tom conspirativo] que devo morrer em breve. Porque essas pequenas epifanias só se dão com um roçar delicado de asas. E não foi bem um anjo que bateu em mim.
por c. - 3:59 AM
É com a mão que vou te tirar de mim:
a mão que é taça de outro seio
a mão que enxuga a última lágrima
a mão que afaga a pena
a mão que desliga o botão
a mão que enegrece de nicotina
a mão que dá o clique
a mão que te adeusa.
Fui.
[Se de mim perguntarem, não diga que fui por aí. Diga que fui para lá, para bem distantes dos muares que te trouxeram aqui.]
por c. - 3:58 AM
24.6.06
tartamudear. esta era sua ação preferida desde que as obras começaram em seu banheiro. não encontrava nada de nada em lugar algum. tudo revirado. o seu olhar, afoito em busca de pastas de dentes, bobes de cabelo ou de fio dental, mas não, tudo sem lugar. eram dois os homens trabalhando na reforma do seu banheiro. e era pouca gente demais para fazer desaparecer tanta coisa em tão pouco espaço de tempo. e de lugar. o banheiro seria azulejado até ao teto, modernidade que seus pais não entendiam. reclamavam do encarecimento da obra, de sua desnecessidade, diziam que o que todo o mundo usava mesmo era banheiro meia altura de azulejo e não achavam nada conveniente esse espírito modernista que vinha apropriar-se dela. não lhes deu ouvidos e insistiu: paredes geladas roçando o pé direito, seu melo! a louça, simples: branca, calma, rija. [embora cambaleasse um pouco, faltava um pouco mais de argamassa para fixar bem suas estruturas ao piso. que era um tanto assim, escorregadio, deduramos.] o ajudante de seu melo era um pouco desatento. ele deve ter deixado escapar essa besteirinha, vou falar com ele. [mas sabemos que ela nunca falou com seu melo. e que talvez a louça vá permanecer assim por muitos, demasiados anos] o box, de alumínio barato. até que era ajeitadinho, mas via-se que era de segunda linha. não importa, haverá quem há-de gostar. cadê tudo? o desodorante roll on, cadê? e a pinça de sobrancelhas, meu deus? estava bem aqui, no armarinho do banheiro, presa a uma correntinha...
!!!
o armarinho da parede! cadê? o armarinho segura o espelho. o espelho!! onde está o espelho? o espelho não!! um terror dominou-lhe a alma. o espelho! era ali, naquele pedaço de vidro, refletor de partículas do mundo paralelo, o ponto de encontro consigo todas as manhãs. [e também o de todas as noites em que voltava sozinha para casa, carregada pelo maior de todos os abandonos e do qual nunca ninguém desconfiou, mas nós sempre soubemos de tudo, ela nunca me foi totalmente desconhecida, creia.] gaguejou com mais veemência. o es_es_pe_pe_lho_o! não mais reconhecer-se-ia. onde visitar-se-ia? onde sentar e bater papo, pernas cruzadas no sofá e fumaça despregando-lhe de entre os dedos? para quem cantaria agora? a quem acariciaria os cabelos em troca de um sorriso honesto? onde assistir a um abraço tão terno do qual nunca fora vítima, senão naquele reflexo? onde estão os bobs? onde está o espelho? não sei. não sabemos. e dela nunca mais se soube. e tampouco da reforma do banheiro tivemos notícias. uma pena. rezamos todos os dias, pedindo a deus que eles tenham conseguido realizar a reforma. imaginamos que hoje, tanto tempo depois, ela vive rodeada de secadores e pranchas alisadoras, porque, sabe, sempre julguei a precisão de os fios serem lisos na cabeça; fazem escorrer melhor os pensamentos. até que gostávamos dela, era uma boa menina. mas muito, muito romântica, coitada. escuta, aceita uma cervejinha? o amendoim? no armário da cozinha. é. aquele espelhado.
por c. - 5:18 PM
23.6.06
Andando entre cacos me sinto em pedaços
E até hoje não sei dizer se está tudo acabado
Mas não troquei minha boca fechada pelas suas palavras vazias
Você me fez envelhecer, um ano a cada dia
Você me fez cair outra vez, na minha armadilha
Chego em casa tarde e ninguém me vê
Não há nada errado em não saber que fazer
Mas não troquei minha boca fechada pelas suas palavras vazias
Você me fez envelhecer, um ano a cada dia
Você me fez cair outra vez, na minha armadilha
[ Eduardo Moraes / Finis Africae - Armadilha]
por c. - 5:56 PM
18.6.06
o amor é a depravação do nervo óptico.
[camilo castelo branco - coração, cabeça e estômago.]
por c. - 9:32 PM
16.6.06
deste teu amor manso
[há muito meu conhecido]
trago sempre teus cabelos soltos no ar
teu sorriso cabisbaixo
tuas lágrimas grossas [ tempestade ]
tua risada tímida [ chuva fina ]
deste teu amor selvagem
[há muito meu conhecido]
trago sempre tuas mãos entranhadas às minhas
meu nome colado à tua boca
teus cílios borboleta
e tu me consolas;
e me trazes sopas antibióticos e cigarros
a mão e o colo
e eu te consolo;
e me trago desejos sepultados e remorsos
tua mão e teu colo.
por c. - 3:08 AM
15.6.06
Como foi que esta ausência em mim penetrou,
Assim de mansinho, quase sem se fazer notar?
Como ela foi capaz de me quebrar cristais,dentes,
De romper músculos, nervos,artérias?
como foi que saíste de mim sem que eu visse?
Quando acordei, de ti só restava o pijama
E o vazio marcado na cama inda quente.
Que fiz eu para merecer tamanho descaso,
Desdém, frieza, cansaço e respostas irritadiças?
Por que não me disseste que querias aventuras,
Bicicletas, pipas, caminhadas ao poente?
Por que não elogiaste os ônibus lotados,
Os trens de subúrbio, as vans piratas,
As lojas populares,os camelôs?
Por que fizeste tão pouco caso de minhas griffes,
Meus perfumes importados, meus cremes, meus sais?
Por que desprezaste meus soirées, minhas sedas,
Meus cetins, meus escarpins, minhas botas
E não fizeste a apologia das havaianas,
Das bermudas, camisetas e bandanas?
Por que me deixaste assim, fêmea no cio,
Loba a uivar na noite escura das florestas,
Espatifada em negligées, espartilhos e essências raras,
Se o que procuravas era uma mulher sem vaidades?
[ Girassol sem Catavento/ (Luz Porto ]
por c. - 12:03 PM
8.6.06
era ácido o teu cheiro. e macia a tua boca. teus olhos vivos contrastavam com os peixes mortos no aquário. tuas pernas marrons, gigantes tentáculos, eu as vi enlaçando as minhas. e era com se todos aqueles rostos perdessem suas expressões. todas aquelas letras fossem passear mãos dadas na calçada. era o caos apaziguado. não havia líquido. e tampouco houve sólido capaz de sustentar os braços que surgiam das prateleiras. nada mais houve além da respiração em suspenso. possuimo-nos ali. naquele breve instante em que as rosas brotaram do carvalho. naquele breve instante em que as palavras escorregaram na gelatina do soalho. naquele momento eterno que nos olhamos em outra direção.
por c. - 10:04 PM
7.6.06
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
[ Mário Quintana - Poeminha Sentimental ]
por c. - 11:35 AM
5.6.06
Permaneço deitado, ignoro o dia, não me mexo, recuso-me a pensar. Durmo como se nunca mais acordasse, e ao acordar já é novamente noite. Como abundantemente, fumo muitos cigarros e bebo pelo menos meio litro de café.
Mas, apesar de tudo, e com a prática de muitas ressacas, nem sempre consigo evitar a dor provocada por essa outra ressaca - a ressaca mental.
Sempre bebi em quantidade, violentamente, para perder, a noção de mundo, e do mundo. Nunca bebi dramaticamente. E no dia seguinte a ter bebido muito, é como se os sentidos e a memória tivessem sido passados a efregona e lexívia.
E dos sentidos surgem então sensações estranhas. Por exemplo,um orgão qualquer desata a arder, ou perco a visão - cego por instantes, e sou obrigado a tactear-me para me para me certificar que existo.
Nada disto é agradável ou desagradável, é um outro estado de singular lucidez que pode prolongar-se horas a fio entre uma espécie de escuridão primordial e a fulguração dum tempo ainda por vir, ou já eterno.
Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, sem nome, sem olhar para o que me rodeia, sem corpo que me transporte, sem pensamentos.
Quanto à memória, é terrível. Umas vezes vai buscar imagens distantes de acontecimentos que, em geral, ainda virão a suceder. Outras, pura e simplesmente não há memória de nada. Um pouco como se tudo começasse a ser a cada fracção de segundo, e levo um tempo infinito, desumano, para erguer de novo, peça a peça, o que sou.
A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo.
Mas um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade de regressar de onde estiver. Continuarei a beber ininterruptamente e não haverá mais ressaca, nem dor.
Seduz-me a ideia de vir a morar num corpo que já não sente, etílico talvez, transparente, e com uma leveza de cinzas.
[al berto, ressaca para uma autobiografia, 1998, o medo]
por c. - 12:08 PM
Toda a vez que eu vou tomar
Birinight
Qualquer coisa em qualquer bar
Você logo diz aflita
Birinight
Que o meu mal é a birita
E é!
Eu bebo e pago prá ver você ficar mais bonita
Quando grita que eu, se não parar de beber
Vou acabar meu viver num copo de ilusão
E então tremendo com a mão aponto o grande culpado
Um coração magoado
Que ama feito criança, mas só entra na dança
Quando embriagado
Quase sempre reclamando
Birinight
Bar em bar vamos rodando
E se um dia eu parar
Birinight
É sinal que eu aprendi a amar
Enquanto isso não vem eu faço o que me convém
E o que bem me apraz
Se não for bom prá você vá procurar outro alguém
Que beba menos e que ame mais
Porque o meu é a birita
Birinight
Eu não vou parar de beber!!!
[ Angela Rô Rô - Meu Mal é A Birita ]
por c. - 11:58 AM
Nem que eu caminhasse às três da manhã
Nem que eu me enganasse prá ver o que é bom
Nem que eu caminhasse até o Leblon
Não iria encontrar
Você navegando os mares da Espanha
Tecendo prá outra seu corpo com manha
Você navegando o vazio da Espanha
E eu no Leblon
Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais
Você quando acorda tem gente do lado
Mas eu quando durmo é um sono abafado
De uísque e vergonha
Por nunca encontrar você...
Ainda insiste na experiência
Pensando que o amor é como a ciência
Amantes diversas não vão te trazer nada a mais
Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais
Nem que eu caminhasse de volta prá casa
Deixando as mentiras e os sonhos prá trás
Tentando viver o real de um amor
Que se deu demais
Nem que eu caminhasse às seis da manhã
Nem que eu me cegasse prá ver o que é bom
Nem que eu rastejasse até o Leblon
Não iria encontrar....
Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais
[Angela Rô Rô - Mares Da Espanha]
por c. - 11:50 AM
4.6.06
teca
teca
teca
teca
teca.
té mais, teca...
té sempre, teca.
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por c. - 1:11 PM
3.6.06
" A menina era criatura de grande capacidade de amar.
Uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá (...)"
Clarice Lispector
J., meu amor,
acabei de fechar a última gaveta. Continuo com a angústia do dégradé. Do negro ao branco encardido, as camisas se me olham com um plácido desdém. Acostumaram-se, talvez, à desordem. Devo doutriná-las novamente, agir feito um general de medidas e tons sobrepostos. Sinto um ar pesado de revolta, um levante. Respiro as partículas do tal desdém e eles se me grudam às narinas quietas: lixo-me! E, é claro, eu tenho a espada e a bainha e, assim, elas, as camisas e a ordem, hão-de obedecer-me. Enfim, digo-te que tenho meu armário arrumado. Não mais as gavetas me acusam. Sabias que elas negavam fechar-se sem safanões tamanho era o descontrole nos vincos e dobraduras, pois não?
E, sim, estarei contigo mais tarde. Avise F. que hoje à noite pensaremos mui seriamente nos poemas prometidos. Pois estou livre de obrigações. Meu armário está arrumado, meus dentes escovados e a caderneta de telefones devidamente atualizada. Volto ao feliz estado da inércia contemplativa: nada mais se move acima de mim.
Amor,
C.
ps: Lembra-se da jaqueta de U. e há muito aqui em casa esquecida? Pois acabo de embalá-la. Farei de E. o portador ideal, já que não ouso tocá-la mais. A aspereza daquele tecido mole: rilho os dentes tamanha estupefação. E embrulho-me o estômago. Como pude, J., como pude? Sim, tinhas razão todo o tempo. Era uma chuva. E agora que gasto lentamente a pneumonia que esta água breve me presenteou, agora que entrei com fé nos antibióticos, agora eu sei que não morro mais. E, não bastasse meus cuidados farmacológicos, comprei-me um par de galochas. Nunca mais outro pântano terá a delicadeza dos meus pés nus encerando-lhe as entranhas. À rave, meu amor, à rave da carne!
por c. - 2:56 PM
2.6.06
ler é a arte de desfazer nós cegos.
[goethe]
por c. - 3:01 PM
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