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24.7.06
Desço do táxi. O elevador se oferece imóvel, calado e gentil. "Entenda que é para seu bem. Vai ser melhor assim." Simples e secamente, sou como que notificada. Passo a língua pelos lábios e sinto que estão gretados: a eterna acidez das minhas palavras. Quatro. "Boa noite." O porteiro responde com um: "Seu Antônio disse que amanhã não tem água, não. Melhor economizar." Digo que sim com a cabeça. Fixo o olhar novamente no display do elevador. Três. Dois. Um. Um. Meu vestido está amarrotado. "Entenda que as oportunidades estão aí mesmo, tente entender, não se martirize." Que vão todos em fila para o inferno. Dois. Três. Quatro. Quatro. "Boa noite, desce?" Indico-lhe a seta de bico em riste, era cego por um acaso? Não, era é daquele tipo de gente com mania de comunicação. Estou farta, chega. Cinco. Uma criança chora. Estremeço. Fagner. Alguém escuta Fagner no sexto andar. Sete. Sete. Setecentos e um. A luz do corredor está acesa. A réstia de luz projeta sombras esquisitas na parede e vejo umas formigas ruivas escorrendo pelo rodapé. Procuro pelas chaves na bolsa. Abro a porta. Chega, chega. O elevador desce. Entro. Da sala, vejo migalhas farelando o azulejo morno e por detrás do fogão novo brilha um par de olhos cinza-blasé.
Desço do táxi. O elevador, escarnecendo da urgência, foge de portas fechadas. "Olha, alguma coisa está acontecendo, vá até lá, por favor." Sou obrigado a perceber o porteiro. "Ah, a dona não está bem, não...", ele aponta o dedo para o alto desaprovando o estado das coisas. Digo que sim com a cabeça, há um quadro torto acima da cabeça dele. Quatorze. Treze. "Há um silêncio escancarado atrás daquela porta, viu? Antes ainda se ouviam uns guinchos, mas agora não dá para saber nem se está morta: nem voz, nem cheiro escapam. Vá lá, por favor." Treze. Ameaça o quatorze. Não, vem o treze. Doze. Onze. Vou ao sétimo. O porteiro já não tem mais olhos, confunde-se com o vazio. Dez. Nove. Oito. Oito. Oito. A portaria, um castiçal de sombras. "Parece que chove de madrugada..." Porteiro meteorologista... Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Já. Ascendo. Um. Dois. Meu paletó está úmido. Três. Quatro. Quatro. "Boa noite, desce?" Não, não. Cinco. Suo. Meus sapatos estão gastos. Esqueci a carteira no táxi. Uma tampa de panela reverbera no chão duma cozinha qualquer. Chopin, Noturno no sexto andar. "Ela deve estar morta, não deve estar se alimentando." Sete. Sete. Setecentos e um. O sensor de luz adivinha minha presença e uma luz melíflua inunda o corredor. Apalpo os bolsos. Não preciso tocar a campainha, uma ratazana de olhos vazados me abre a porta. Entro. O elevador sobe. Da sala, vejo um rastro gosmento lustrando o azulejo frio e, na gordura seca escondida atrás do fogão, vibra um par de olhos azul-glacé.
[ gordura seca - 5º colocado no concurso literário lima barreto - unesa, julho de 2005 ]
por c. - 11:41 PM
as várias visões do branco
hospital: fim remoção contas
sal: morte lenta
coca: morte eufórica
teatro: morte momentânea
etnia: morte no 70's bronx
e eis o corpo tentando despelar-se da memória sustentando a cal suspensa, mãos brancas postas prontas a fermentar o bolo na
garganta no ódio das letras em traços fortes sulcando a página seguinte marcando o ódio no papel. marca de ódio no papel
[as variantes]
por c. - 11:37 PM
e nada do que se move pelas franjas dos teus olhos há-de subestimar o lodo negro que te serve de assento. sinto peneiras nos ossos, há o frio transpassando as paredes uterinas e o toque raivoso de asas translúcidas que estão por aí
arrastando seu tecnicólor a válvula na minha vida em preto e branco.
bebi meu estoque de veneno, colhido da fonte de escorpiões que crio debaixo de minha cama.
ao fazê-lo,
deixo uma lembrança rasgada na beira do lençol
como uma janela a se fechar para o ocaso.
aquela velha conhecida lembrança sem luz e
ainda respirante trôpega.
e que só permanece viva por força das linhas que me traçam o tempo na cara.
[bolo]
por c. - 11:33 PM
Posto que me contaste dos homens que
sua calva mentiam e a seus olhos escureciam
[enganando um romantismo dado às tias]
é mister que te confesse que muito já me enegreci os olhos
querendo imortalizar-me
com as cores funestas dos dias.
Oh, Maria
trazei-me os louros
com os quais os césares
laureavam os soldados e a abadia
e assim, juro-te!
abandono o kajal e esta suposta filosofia.
por c. - 11:22 PM
8.7.06
Rosalva não tinha filhos. Amigos. Dinheiro. Carros. Jóias e dentes. Tereza não tinha nada. Tereza morreu. E, em seu lugar, nasceu Mary Ellen. Que não tem escrúpulos. Pudores. Censuras. Ideologias. Inimigos. Título de Eleitor e Religião. Mary, sê bem-vinda, Ellen.
por c. - 5:54 PM
lá na cracóvia existe um homem solitário
que mata
rouba
e
assalta.
cá na guanabara existe uma mulher solitária
que mata
rouba
e
assalta.
encontraram-se. [por culpa destas sinestesias do destino]
fulminados pela escopeta da língua,
frente ao hipotético paredão feito de fios e caracteres,
jamais hão-de encontrar-se.
bárbaros visigodos o condenaram
bárbaras e alices a condenaram.
por c. - 5:52 PM
atarraxam-se as mandíbulas e o bolo na faringe não se vê dissolvido
folhas de alface, maizena e pêlos brotam à minha frente,
neste pequeno espaço negro em que te volteio.
sons deslizam janela adentro e não vejo tempos de paz.
vou plantar feijões em meu teclado, alimentá-los e, feito joãozinho, alçarei outra dimensão quando as letras escarlates estamparem-se nas páginas
azuis
de
um
livro
negro.
terras lusitanas.
por c. - 5:52 PM
2.7.06
"Eu sou um robótico, um pierrô do Méier. Sou um homem que chora. Meu sentimentalismo é meu ponto forte."
[ Nélson Rodrigues ]
por c. - 1:41 PM
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