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29.9.06



"Há três temas: o amor, a morte e as moscas."

[Augusto Monterroso]

por c. - 1:43 AM



Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus do monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

[Idealização da Humanidade Futura - Augusto dos Anjos]

por c. - 1:37 AM



28.9.06

Thelonious Monk não lhe era de todo desconhecido. Ouvira-o havia uns anos no toca-discos de Pedro, seu vizinho lisérgico. No entanto, claro, ouvido suburbano sambista, para aquele fraseado repleto de armadilhas rítmicas um nada se importou. Gostava mesmo era de Beth Carvalho e Jorge Aragão. De Originais do Samba e Mauro Celso: o hit da farofa embalara-lhe o desejo ancestral de euforia. Harmonia era antes o recheio de sua cabeça de ventilador, que espalhava viagens céleres a bordo de um veleiro pirata, sua visão mais constante.

Mas dera para sonhar com Thelo. Alcunhara-lhe com intimidade, pois que anos este homem a atormentar seus sonhos. Químicos ou naturais. Redondava o dia e lá estava aquele homem caçando-lhe entranhas. Por que não Ruy Mauriti? Ou Arnaud Rodrigues? Não, tinha de ser este homem de frases perfeitas e nome dissonante. Thelonious. Sphere. Esfera? Gregas lembranças? Que nada, era a força dos vocábulos bárbaros. E só.

por c. - 10:49 AM



Imaginava-se casada aos 32 anos, dois filhos de colo e um carregante pela mão, à guisa de desbravador. Punha-lhes o jantar todas as noites: feijão, arroz, goiabada de sobremesa, inevitável suco de caju para a comida não embolar. Trocava os lençóis às quintas, e as roupas de banho dois dias depois. Anotava receitas de cozinheiras-culinaristas-artistas mesmo sabendo que a alcachofra estava pelos olhos da cara e a alcaparra não tinha lá um gosto muito bom: o do meio, certamente, iria enjoar. Mastigava a língua enquanto esfregava a beirada da banheira. Retorcia os lábios enquanto aplicava soda cáustica na privada perpetuamente entupida: merda demais sufoca até a louça fria. Feira, na quarta. E terça era dia de trepar. A febre da menina a deixara de cabelos em pé: 42 graus à sombra por três dias, hipertemia indiana. Um milagre tilenóico a salvou, não cria na medicina humana: diga-trinta-e-três-dói-aqui?-é-virose, disso ela já sabia sem nem ter precisado academizar-se. Era exata, e também isso lhe era sabido. Das contas, ignorava o destino. Depositava-as na caixinha de Leite Moça - ótima promoção e, de brinde, uma caixa de flandres, feito lata de biscoitos da vovó. Miraculosamente, a papelada ressurgia dias depois. E carimbadas pela agência bancária da esquina. Manicurava-se com esmero, ainda que a água sanitária carcomesse-lhe as pontas dos dedos nausabundeando sua pele. Diuturnamente.

Um bater de portas a acordou e, com um arrepio galgando-lhe escada vertebral, viu-se livre daquelas imagens. Tinha 32 anos e era dona do mundo, sem animaizinhos pingentes de suas saias. Andava onde lhe desse na telha, mandava e desmandava, senhora de passadas.

"_Sai fora, tá sujando a entrada."

Espreguiçou-se e, sorrindo, arrecadou suas sacolas repletas de garrafas de água mineral - era minuciosa, só catava das gasosas - seus papéis dos mais variados tons, sua indefectível vassoura - era muito limpa - e tratou de arranjar u'a marquise mais educada.



por c. - 10:31 AM



16.9.06

das literaturas [II]


LITERATURA PRIMÁRIA

vovó viu a uva

ivo viu vovó


LITERATURA DE PRIMEIRA

"qual seu nome?" "você já foi traído por alguém?" "qual seu signo?" "qual é o seu rebelde preferido?"

os rios da margem direita do amazonas são:

a vegetação canadense constitui-se da tundra e da taiga.


LITERATURA DE SEGUNDA

aurélio: anástrofe; inversão da ordem natural entre duas palavras dentro de um mesmo constituinte.

deve-se constituir-se de um avogadro

para entender a

legislação de mendel


[e trocam-se os rebeldes: che entra em cena mãozinhado a bob marley.]


LITERATURA SUPERIOR

zoológica leporídea

filósofos lacrimados

leonardo decodificado.


[céus...]

por c. - 2:11 PM



das literaturas

LITERATURA PRIMÁRIA

1 apontador
1 borracha
1 lápis
1 resma de papel
12 lápis coloridos
1 caderflex verde
1 caderflex azul
1 caderno de desenho


LITERATURA DE 1º GRAU [FUNDAMENTAL]

1 lapiseira com borracha
1 caneta azul
1 caneta preta
1 tabuada
1 atlas
1 caderno 10 matérias

LITERATURA DE SEGUNDO

1 machado
1 aurélio
1 aluísio
1 caderno 10 matérias
[hello kitty pras meninas, flamengo para os meninos]
10 meias-entradas


LITERATURA SUPERIOR

1 carteira
100 notas de 100,00

por c. - 2:10 PM



mentira.

por c. - 2:09 PM



n
ã
o

escrevo

+

n
a
d
a

aqui.

fui.

por c. - 2:30 AM



5.9.06

Falas de amor e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

[Idealismo - Augusto dos Anjos]

por c. - 9:59 PM



1.9.06

e entre os dois irmãos do hatoun

, ou dos gêmeos rochosos do chico,

tu

, desgraçadamente pra ti,
, concordo,

não estás mais compreendida entre.


e é só a insônia

, nas lentíssimas noites,

que ainda faz escorrer

, vez ou outra,
, quando me abandona o sono em caixinha,

teu nome na ponta dos meus dedos.

e foi este outono atípico

, descarnado de vermelho,

que desmazelou minha razão.


arrependimentos não nasceram.
saudade? o teu rosto

, covarde como o resto,

me fugiu!

[mas

, confesso,

chicleto na boca um travo de unhas sujas
canções românticas
e fados lamentosos.]


[portanto, adeus, hiato no espectro entre o verde e o azul.

mergulho novamente no verde-marujo
há tanto meu conhecido e mui firme em sua decisão de ser cor.


o céu que abrigava o sol
trouxe efêmeras efélides.

desculpe, eu juro que acredito que deverias viver.
mas esqueci tudo

, e agora

não serves mais nem para personagem de coelho.

fim decente.]

de "se plutão nem é mais planeta o que dizer de ti na minha abóbada autoportante?"

por c. - 9:48 AM





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