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28.10.06
tu lias coisas escritas aqui. eu também. mas esta cidade já se encontrou. casas e canos reunidos, desembarcamos, c. e cidade, no breviário de c.. agora estamos lá. se quiser nos visitar, venhas por aqui. porém, se quiseres arqueologizar, passeio turístico em cidade tombada, é só vires por aqui.
aqui era bom. muito. mas lá vai ser diferente. vamos ver no que vai dar. vamulá.
[beijo, cidade. sempre gostei muito de ti.
tua sempre,
c.]
por c. - 2:50 AM
26.10.06
pros que estão em casa:
breviário de c.
estácio de sá, lins de vasconcelos, 58.
26/10, 20:30h.
caracteres abaixo tornando-se letra morta.
mas que coisa, hein?
por c. - 2:21 AM
18.10.06
ela chorava. choro seco. só ali percebi o quanto estava velha, ainda que a visse todos os dias. as dobras do queixo. pescoço empapado. a boca descorada. um olho mais fechado do que o outro. os cabelos, sem viço. ela era um clássico cubista, transfigurado, sem simetria e sem causa aparente de ser, porque eu só a tinha por uma perspectiva. uma espécie de dor enviesava seus olhos. um dia, eles não foram baços. ou talvez fossem cínicos, sei lá, porque conseguiram disfarçar a falta de brilho por estes anos todos. ela mudou-se velha tão logo sentou-se à mesa e olhou fixamente para um ponto qualquer atrás de mim. muda. seca feito palito de fósforo cabeça queimada. incomodei-me. acertei-me na cadeira. eu não estava com a disposição de rivera para amar o feio. e a visão de mosaico me era muito trivial naquele momento. ela me fazia lembrar um quadro detestável da casa de minha avó. com um pavão desenhado em pedaços de vidros coloridos. minha avó já foi. e a merda do pavão ficou. tamborilei os dedos. fingi um pêlo na bainha da calça. eu não gostei dela. aliás, tive-lhe nojo. imaginei-a nua, carne desmantelada. cheiros úmidos. pernas vincadas. voltei-lhe o olhar. o peito, em forma de triângulo, me era bem visível. mesmo vestido. fugi os olhos dele. mas continuei pensando que eram mamas secas, virgens de alimento. e que escorriam para o chão, numa tentativa de nutrir, pelo menos, a terra do jardim ao lado. ela endurecia um vaso de comigo-ninguém-pode num canto da cozinha. ela não regava as plantas. e chorava. agora com lágrimas. pigarreei. ela notou. hein? nada. uma tosse só... muito cigarro..., ela me respondeu. minha voz saiu abafada, metálica, não minha. eu queria ir embora dali o mais rápido possível. chamei a garçonete. ela não veio. o tempo era fog londrino. não sei se eu estava gostando disso também. chamei o cara do amendoim, ele não veio. e nem uma merda de criança vendendo bala aparecia naquele momento. ninguém vinha em meu auxílio e ela continuava ali, desfigurando-se na minha frente. cheguei a imaginar que ela não tomaria um ônibus quando fosse embora. que entraria direto num caixão de segunda, e que, pelo menos, pouparia o resto da humanidade de viver a sensação que eu experimentava. e só assim eu me livraria do fardo de assistir àquela mulher, que tanto amei, deixando este mundo feito um bolo de cabelos na pia.

por c. - 3:54 PM
7.10.06
As longas datas
Em que passei
Perdido na cadência
Dos dias
São breves os dias
Em que alcancei
Os doces olhos
Da senhora feliz
Que acena o seu manto
E me diz venha cá...
Deixes ver
O que queres, senhora...
O riso e o gozo
Das alegres temporadas
Que procura todo homem
Como cego sem chão.
Abram suas alas
À dama do esplendor
Se ouvir um grito
De loucos ao redor
Eles são teus filhos,
Muitos filhos são;
Senhora feliz, és a mãe de um crime, senhora feliz
Bom e generoso e sorris
Quando esbofeteias e
Ofendes o corpo com os dias...
Feliz velho
Feliz criança
Senhora feliz...
Pisei em vão na longa estrada
Perdido na estrela furtiva
Que sobe e desce na madrugada
Como um pássaro ferido
Que estremece o seu vôo
Nos lençóis que a virgem amou...
Abra as asas como um leque, senhora
Seja o abrigo e beijes
As esperanças vadias
Que encontram tuas garras
Procurando por tua mão;
Palmas, muitas flores
Imagens de pavor
Se ouvir um grito
De loucos ao redor
Eles são teus filhos,
Muitos filhos são
Senhora feliz !
[Flávio Murrah]
por c. - 2:45 AM
4.10.06
A cigana leu o meu destino...
Eu sonhei!
Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei:
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?
Já desfolhei o mal-me-quer,
Primeiro amor de um menino.
E vai chegando o amanhecer...
Leio a mensagem zodiacal,
E o realejo diz
Que eu serei feliz,
Sempre feliz !!!!!
Como será o amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser.
[O Amanhã - João Sérgio]
por c. - 2:03 PM
Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
[Paul Verlaine - Moral abreviada ]
por c. - 12:44 AM
3.10.06
«Aos 37 anos, José Mário Branco escreveu o "FMI". Aos 37 anos, apetece-me dizer com os situacionistas que "nada queremos de um mundo no qual a garantia de não morrer de fome se troca pelo risco de morrer de tédio" (Raoul Vaneigem, A Arte de Viver para a Geração Nova). Apetece-me dizer com André Breton que "a ideia de revolução é a melhor e mais eficaz salvaguarda do individuo" ("La Révolution Surrealiste", nº4).
Apetece-me estar com a subversão. Com a crítica radical à ditadura do consumível, da mercadoria, do quantitativo, do défice. Apetece-me estar do lado da liberdade, da liberdade absoluta contra a ilusão da liberdade de compra e venda, da sobrevivência, da "sobrevida" que substitui a vida, do quotidiano insuportável, do tédio.
Apetece-me estar com os poetas malditos. Com Rimbaud, com Baudelaire, com Nietzsche, com Sade, com Lautréamont a infernizar tudo quanto é direitinho, conforme às normas, castração.Apetece-me estar contra todas as formas de autoridade, opressão e dominação.Apetece-me estar do lado da rebelião.
Apetece-me dizer que já pouco acredito nos partidos, mesmo nos de esquerda. Que lutar por lugares dentro da democracia burguesa é aceitar como irreversível a democracia burguesa e, portanto, afastar totalmente do horizonte a revolução, mesmo que se continue a falar na construção da sociedade socialista. E não há transições pacíficas para o socialismo. Como escreve António José Forte (António José Forte, Uma Faca nos Dentes): "Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo?".
Apetece-me dizer que acredito na poesia e no amor como formas sub-versivas. Que acredito em actos provocatórios, em agitações espontâneas que ridicularizem o instituído, no terrorismo poético. Que a criatividade é o último reduto da rebelião.»
[A. Pedro Ribeiro, Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro: Porto, objeto cardíaco, 2005.]
por c. - 11:55 AM
2.10.06
por c. - 12:39 AM
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